domingo, 11 de julho de 2010

Praga




E se vos contasse uma história em que “praga” era a palavra mais utilizada? Chegariam lá? Precisavam de mais pistas? Humm… Ok. É justo.
O país é o Lesoto, mas garanto-vos que esta praga também está em Portugal. Aliás, ao que vejo, não há país onde não espalhe os seus tentáculos. É tudo igual.
A mesma “qualidade”, os mesmos produtos, o mesmo comportamento: trabalho, dinheiro. Trabalho, dinheiro. Sem fim. Não há feriados, fins de semana ou dias santos que resistam à sua voracidade de “graveto”. Santo é cada dia em que mais uns $$$ entram no cofre.
Este perfil colide abruptamente com o africano, bem mais relaxado e sem cuidar ou interessar pelos bens alheios. Aliás, nem alheios nem os seus. Importante é assegurar algum que dê para o dia. Com sorte, para o próximo também há e, se bem gerido, o que é coisa rara e quase anti-cultural, para a semana seguinte.
Os chineses estão em todo o lado. Deus, se existe, deve invejar a sua omnipresênça. Eu invejo!
As lojas são passadas a papel químico. Vendem todos o mesmo. Um milhão de produtos sem utilidade duvidosa, de frágil qualidade, a preços convidativos. Imbatíveis mesmo. As multinacionais ainda têm esquecido este país e Maseru, a capital, não ostenta o símbolo de qualquer marca conhecida. Mas isso não impede que haja lojas a vencer o mesmo material desportivo e de montanha a preços mais inflacionados do que em Portugal. Mas isso é outra história.
Um africano sem abrigo brinca com uma empregada igualmente africana de uma loja chinesa. A jovem alinha na folia e ouve uma reprimenta de primeira ordem. A chinesa fica sem pulmões de tanto berrar. Até eu me assusto. Pensei que tinham acabado de matar alguém.
Indiferente, a “vítima” vê-me entrar e segue-me. Pergunto-lhe se gosta de trabalhar para chineses. Encolhe tranquilamente os ombros. Sorri. Diz que lhe é indiferente.
- Não ligo. Assusta mais os clientes do que a mim”, e solta uma descontraída gargalhada.
“Hakuna Matata”, penso eu.
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sábado, 10 de julho de 2010

Corn - Maseru


(continuo sem forma de acentuar as palavras)

- Gostas disso? ‘E uma das melhores coisas que temos no Lesoto e nao podes encontrar em mais lado nenhum.
Nao evitei sorrir. Afinal, o que era tao exclusivo no Lesoto e algo que desde miudo me habituei a saborear . Eu e mais de metade do planeta.
O seu ar incredulo ainda esta bem marcado na minha mente. E la tive de lhe explicar.
- Meu amigo, milho existe em todo o mundo. Nao deve haver pais neste planeta que nao o tenha. E optimo. E esta macaroca assada esta uma delicia.
Em segundos se recompos e logo tratou de me vencer algumas das suas obras de arte. Brincos, a prenda usual para a minha beloved sister.
A Kingston Road resume Maseru, a capital do Lesoto. A toda a hora sao centenas ou milhares aqueles que a percorrem em simultaneo. Na dita baixa ha lugar para as grandes companhias de telecomunicacoes, seguros e departamentos do governo. A medidade que a vamos subindo, o nivel das lojas vai baixando, tal como o poder da carteira daqueles que andam as compras.
De uma ponta a outra, apenas o sorriso aberto e sincero destas gentes que encarnam o verdadeiro espirito de africa, que tao arredado andou no periplo africatrio.blogspot.com
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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Blomfontein tem mais encanto com a familia JARDIM




O Pina, companheiro da Lusa, ja me tinha dado o contacto de um casal CINCO ESTRELAS que vive em Bloemfontein, a cinco horas de viagem de autocarro de Joanesburgo. Gabriel e Rosa Maria sao os responsaveis por uma familia com quarto filhos. Foi com Patricia que pude conversar e inteirar-me um pouco mais sobre os multiplos dramas do seu trabalho de pediatra no hospital. Gabriel esta a pouco de editar um livro sobre a sua amada Madeira e Rosa Maria foi voluntaria no Mundial2010. Dedica-se a fazer maravilhosos colares e pecas afins.
Com um sorriso aberto, Gabrial veio esperar-me a central de camionetas. Era cedo, mas nao havia qualquer transporte para o Lesoto.
- Tem la um quarto a espera, atirou. Nao havia forma de dizer nao.
Em pouco tempo, a confianca ganhou raizes e colocaram-me tao a vontade que era como se nos conhecessemos desde sempre. Uma simpatia extrema e uma vontade de ajudar sem limites. Ficou combinado trazer-me ao Lesoto na manha seguinte. Uma viagem de cerca de 150 km para cada lado. Quem faz isto por um desconhecido?

PS: Estes textos estao a ser escritos a pressa e sem revisao, pois tenho parcos minutos em local onde a internet e lenta e marada. E tambem ja perceberam que nao ha acentuacao.
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200 a 9 em just 5 minuts




(pc marado, texto sem acentuacao)

O trocadilho e muito facil de explicar. Sai da cosmopolita Sandton, da praca Nelson Mandela, e, sem pistas, fui saber a melhor forma de chegar a Bloemfontein, a um tirinho do Lesoto. La me indicaram um local com taxis, onde sobravam Gimbras relaxados nas respectivas viaturas de nove lugares. Pelos vistos, branco continua a ser banco e la atirou com uns modestos 200 rands (20 euros) para um percurso de 20 minutos. Mandei-o onde muito bem estao a imaginar e em 10 segundos o preco ja ia em 100. Face a minha irredutibilidade, la me perguntou quanto estava disposto a pagar. Obviamente, deixei-o a falar sozinho.
Pergunta atras pergunta, la acabei por apanhar o bus/taxi que me levou a desejada central. Nove rands, foi tudo o que paguei.
A viatura foi enchendo. Malta simpatica. E a peculiaridade de cada um tocar no ombro de quem esta a frente para lhe dar o dinheiro que ia passando de mao em mao ate ao motorista.
Chegado perto do destino, um senhor de uns 50 anos, que transpirava simpatia e humildade, fez questao de me levar a central. Passei por zonas complicadas e, nao fosse a companhia, imagino que chegaria ao destino aliviado dos meus parcos pertences.
Mais sorte do que juizo, o autocarro para Bloemfontei partia em cinco minutos. Ja a caminho…
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Blue Me




O estimulante reino animal é fértil em surpresas. Umas boas, outras nem por isso. Voltando ao Kruger Park, deparamo-nos com madrugadoras girafas, que às 06:00 se atravessaram no caminho. Altivas. Maravilhosamente imponentes. Haverá melhor forma de começar o dia?

“Minúsculos” mangustos curiosos ou esquilos irrequietos também fazem parte deste curioso mundo animal, em que, para sorte nossa, abundam igualmente pachorrentos elefantes.

Entre imensos animais invulgares – são imensas as belíssimas espécies de aves - destacou-se uma determinada espécie com um “predicado” específico. Não é montagem.
Como diz o outro, “uns têm, outros não”.
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sábado, 3 de julho de 2010

Kruger Park




Depois de cumprido o sonho do Serengueti e de Ngorongoro, ambos na Tanzânia, só faltava mesmo ir ao Kruger Park, um dos parques nacionais mais apetecidos do planeta, encrustrado entre a África do Sul, Moçambique e um “niquinho” a sul do Zimbabwe.

Aqui vivem os “big five” (leões, elefantes, rinocerontes, hipopótamos e girafas) , os animais mais procurados por quem gosta de aventura. Mas há aqui muitos outros animais, muitos mais.

Começámos o dia tarde (ainda viajamos seis horas de carro), mas em pouco tempo deparamo-nos com duas manadas de ameaçadores elefantes (incluindo crias) a atravessar a estrada a meia dúzia de metros, seguiram-se poderosos rinocerontes pretos, preguiçosos hipopótamos, curtidos lémures, aves de 1001 cores…

Bom, daqui a umas horas estarei a reentrar no parque, às 06:00, para ver tudo quanto é animal a ir beber a um lago… Momentos de pura magia e um mundo completamente à parte daquele em que muitos xafurdam. Ao menos, os animais selvagens têm piada…
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

G E I S H A…





Quando fixou os rasgados olhos nos meus, foi um misto de surpresa, prazer e desconforto. Não esperava, confesso. Ainda não sei o seu nome, mas o corpo esguio, o rosto esbelto, a pele aveludada e o olhar penetrante sobravam para fixar a minha atenção. E de qualquer um.
“Dá-me licença que passe? O meu lugar é à janela”, disse-me, sem pestanejar.
Anuí. Sem voz. Levantei-me, terei esboçado um discreto sorriso e o meu olhar segui-a. Sem assombro, apenas com prazer interior.
Senti o seu perfume passear por mim enquanto se movia, em câmara lenta. Sedutora, não havia dúvidas. Estávamos em primeira classe do voo Cidade do Cabo-Joanesburgo.
A possível “fantasia” que poderia brotar de uma mente imaginativa nem se chegou a materializar, pois, parcos segundos depois, eis que chega a companhia. “O pai”, pensei.
Impaciente, o “pai” fez-me levantar uma e outra vez para tentar encontrar espaço para a mala de mão. Com isso, permitia-me olhar para Li Xiu (nome fictício – ainda pensei com Xao Min ou Chop Soi, mas deposi ficava com saudades…) sem ser óbvio. Invariavelmente, Li Xiu fixava os olhos nos meus. Com uma agressividade que me amarrava. Como que com um inexplicável desejo de alguém que está anos sem ver aquele que nunca abandonou a profundeza do seu coração.
Liberto do seu observar, percebi que vestia caro. Não propriamente sóbrio, mas caro. E nos seus finos dedos (sim, tinha umas mãos belas) reluziam anéis, um deles com uma grande pérola. Os dedos eram esguios e notei que as unhas compridas.
O “pai” sentou-se, finalmente e de vez, e não tardou a insistir em miminhos que Li Xiu renitentemente aceitava. Comecei a desconfiar, mas quando ouvi a sua voz, as duvidas como que se esfumaram.
Como que dotado de um sétimo sentido (upgrade do “velhinho” sexto), logo interiorizei que aquela voz nao enquadrava com a figura, destruindo-a – como a qualquer fantasia – numa impeceptível fracção se segundo.
- “Amorxinho, não me faxax ixo. Xtou canxada”. Esta foi a resposta que imaginei daquela beldade asiática, que falava com o jeitinho melosamente meigo de uma criança hiper mimada de sete anos ou como se uma batada lhe ardesse na boca.
Como se não bastasse, não tardou a tirar os sapatos e exibir os seus igualmente esguios pés, com umas unhas de meter inveja a qualquer águia.
Os modos do seu amante, mais baixo uns bons 20 centímetros, não me deixaram a mínima duvida que era chinês. Foram dois meses naquele belo país. Ainda tenho pesadelos com ossos de frango a voar de gordurosas bocas para cima da mesa.
Não havia dúvidas. Eram amantes. Um casal impossível. Um pesadelo estético, mas certamente uma harmonia de interesses.
Quando me fitou com olhar de despidada já fora da aeronave, já não recebeu o mesmo olhar discreto de espanto e admiração, mas apenas um “é tudo isso que esperas da vida”?
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