quinta-feira, 1 de julho de 2010

G E I S H A…





Quando fixou os rasgados olhos nos meus, foi um misto de surpresa, prazer e desconforto. Não esperava, confesso. Ainda não sei o seu nome, mas o corpo esguio, o rosto esbelto, a pele aveludada e o olhar penetrante sobravam para fixar a minha atenção. E de qualquer um.
“Dá-me licença que passe? O meu lugar é à janela”, disse-me, sem pestanejar.
Anuí. Sem voz. Levantei-me, terei esboçado um discreto sorriso e o meu olhar segui-a. Sem assombro, apenas com prazer interior.
Senti o seu perfume passear por mim enquanto se movia, em câmara lenta. Sedutora, não havia dúvidas. Estávamos em primeira classe do voo Cidade do Cabo-Joanesburgo.
A possível “fantasia” que poderia brotar de uma mente imaginativa nem se chegou a materializar, pois, parcos segundos depois, eis que chega a companhia. “O pai”, pensei.
Impaciente, o “pai” fez-me levantar uma e outra vez para tentar encontrar espaço para a mala de mão. Com isso, permitia-me olhar para Li Xiu (nome fictício – ainda pensei com Xao Min ou Chop Soi, mas deposi ficava com saudades…) sem ser óbvio. Invariavelmente, Li Xiu fixava os olhos nos meus. Com uma agressividade que me amarrava. Como que com um inexplicável desejo de alguém que está anos sem ver aquele que nunca abandonou a profundeza do seu coração.
Liberto do seu observar, percebi que vestia caro. Não propriamente sóbrio, mas caro. E nos seus finos dedos (sim, tinha umas mãos belas) reluziam anéis, um deles com uma grande pérola. Os dedos eram esguios e notei que as unhas compridas.
O “pai” sentou-se, finalmente e de vez, e não tardou a insistir em miminhos que Li Xiu renitentemente aceitava. Comecei a desconfiar, mas quando ouvi a sua voz, as duvidas como que se esfumaram.
Como que dotado de um sétimo sentido (upgrade do “velhinho” sexto), logo interiorizei que aquela voz nao enquadrava com a figura, destruindo-a – como a qualquer fantasia – numa impeceptível fracção se segundo.
- “Amorxinho, não me faxax ixo. Xtou canxada”. Esta foi a resposta que imaginei daquela beldade asiática, que falava com o jeitinho melosamente meigo de uma criança hiper mimada de sete anos ou como se uma batada lhe ardesse na boca.
Como se não bastasse, não tardou a tirar os sapatos e exibir os seus igualmente esguios pés, com umas unhas de meter inveja a qualquer águia.
Os modos do seu amante, mais baixo uns bons 20 centímetros, não me deixaram a mínima duvida que era chinês. Foram dois meses naquele belo país. Ainda tenho pesadelos com ossos de frango a voar de gordurosas bocas para cima da mesa.
Não havia dúvidas. Eram amantes. Um casal impossível. Um pesadelo estético, mas certamente uma harmonia de interesses.
Quando me fitou com olhar de despidada já fora da aeronave, já não recebeu o mesmo olhar discreto de espanto e admiração, mas apenas um “é tudo isso que esperas da vida”?

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